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Em audiência na Câmara dos Deputados, o fundador da empresa Rodrigo Marques, disse que trabalha para regularizar a situação

 

A Polícia Militar foi chamada duas vezes semana passada à sede da Atlas Quantum, uma empresa de arbitragem de bitcoins que opera na alameda Santos, nos Jardins, em São Paulo, por causa de uma confusão envolvendo clientes que não conseguiram sacar o dinheiro investido.

A startup enfrenta uma série de ações na Justiça movidas por clientes que desde o início do mês tentam sacar o dinheiro convertido em moedas virtuais e não receberam.

Alguns dos clientes conseguiram liminares da Justiça ordenando a empresa a fazer o pagamento, mas na semana passada, em duas ocasiões, os funcionários se recusaram a receber os ofícios comunicando a decisão judicial — e a polícia foi chamada.

Na segunda vez — testemunhada pela BBC News Brasil — as recepcionistas do prédio ligaram diversas vezes para a empresa. A resposta era de que ninguém do departamento jurídico havia chegado e, portanto, não seria possível receber os papéis.

Só em São Paulo, a Atlas Quantum enfrenta 20 ações na Justiça — pelo menos quatro já resultaram em liminares com ordens de pagamento.

Clientes ouvidos pela BBC News Brasil relatam a impossibilidade de recuperar suas criptomoedas, prejuízos causados pelo congelamento de seus ativos, quebra de contrato, falta de transparência da empresa e dificuldades na comunicação.

Alguns acumulam dívidas, um investiu mais de R$ 500 mil e corre o risco de perder tudo, outro teve até de mudar a cesariana da esposa da rede particular para o SUS.

À BBC, a empresa diz que não está quebrada: aponta um relatório da consultoria Grant Thorton que demonstra que eles possuem uma grande quantia de cripomoedas — 15,2 mil bitcoins e 34,7 milhões de criptodólares.

"A questão atual dos saques se deu em razão de bloqueios dos saldos nas exchanges [corretoras que fazem a conversão]", diz a empresa.

Em comunicados a clientes e em nota à BBC News Brasil, a empresa diz que "está se empenhando ao máximo, com equipe dedicadas em suas operações, para resolver a questão dos saques dos clientes no prazo mais breve possível", mas não dá um prazo exato para regularizar a situação.

Rendimento para bitcoin e propaganda com 'globais'

A Atlas Quantum opera desde 2015 e oferecia rendimentos para clientes que comprassem bitcoins com ela, com ganhos atrelados a "operações de arbitragem automatizadas".

Nos contratos, dava um prazo de um dia útil para devolver o valor para quem quisesse sacar — prazo que tinha sido respeitado, segundo os clientes, até o mês passado.

No entanto, a Atlas não tinha autorização da Comissão de Valores de Mobiliários (CVM) para "ofertar títulos ou contratos de investimento coletivo", o que fez a comissão de regulação proibir a empresa de fazer ofertas públicas de investimento em bitcoins.

Em sua decisão, a análise técnica da CVM diz ainda que as propagandas da Atlas Quantum — feitas em rede nacional, com atores famosos como Cauã Reymond e Tatá Werneck — "carecem de uma linguagem serena e moderada, advertindo os potenciais investidores para os riscos do investimento".

"Propaganda

Empresa fazia propaganda com nomes conhecidos como Cauã Reymond e Tatá Werneck

A proibição levou dezenas de clientes a ficarem receosos e começarem a fazer pedidos de saque. Desde então, a Atlas começou a adiar os prazos, e, a partir de certo momento, parou de pagar.

Procurada pela BBC, a empresa diz que o alto volume de saques em um curto espaço de tempo gerou uma dificuldade técnica na conversão dos bitcoins para reais nas corretoras com que opera no exterior.

Mas não deu um prazo para regularizar a situação nem explicou porque as ordens judiciais de pagamento para os clientes que obtiveram liminares não foram cumpridas.

A assessoria do ator Cauã Reymond, que fez a propaganda para a Atlas Quantum na TV, disse que "na época da contratação não havia nada de irregular [com a empresa] que a desabonasse". Procurada pela BBC, Tatá Werneck não respondeu.

Noites sem sono: empresário tenta resgatar mais de R$ 500 mil

O empresário Marcos Vinícius Vieira da Silva, de 35 anos, do Rio de Janeiro, é um dos mais de 25 mil clientes que a Atlas Quantum declara ter "em 50 países" e um dos muitos que tentaram sacar seu dinheiro e não conseguiram.

Dono de 14 bitcoins em posse da Atlas Quantum — o equivalente a cerca de R$ 580 mil reais — ele descreve os prejuízos. "Não é só o dinheiro que está parado, minha vida está parada, eu vivia desse rendimento", diz ele, que desde o mês passado não conseguiu recuperar um centavo.

Ex-militar do Exército, Marcos começou a comprar moedas virtuais aos poucos em 2016. No início do ano, saiu do emprego para viver somente do rendimento dos seus investimentos.

No início, seus bitcoins tinham sido comprados por meio de outra corretora. Mas alguns meses atrás ele começou a deixá-los na Atlas Quantum.

"Tinha sede fixa no Brasil, bastante funcionário, CNPJ, eu conhecia uma pessoa que já investia lá. E principalmente, não oferece bônus de indicação (que é indício de pirâmide financeira), e também não oferece um valor exorbitante de rendimento", diz Marcos à BBC News Brasil, citando os motivos que o levaram a confiar na empresa.

Durante o ano todo, conseguiu fazer o saque dos rendimentos normalmente — ele sacava toda semana — e o dinheiro caía na conta em até dois dias.

Mas, quando os prazos dos saques começaram a aumentar, ele resolveu retirar o dinheiro todo — e percebeu que não ia conseguir tão cedo.

"Foi promessa em cima de promessa, mas o dinheiro não vinha. Aí eu resolvi entrar na Justiça", diz ele, que está acumulando dívidas por causa do atraso no pagamento.

"Cobrança do telefone, a fatura do cartão, prestação do veículo, tenho obra, tenho que pagar funcionário. Não estou conseguindo dormir. Como vou falar para meus credores que não vou pagar?", diz ele.

"Tenho outros investimentos, mas esse justamente era o de maior liquidez. A empresa não está cumprindo com o contrato e está perdendo todo o sentido da criptomoeda, que é ser livre."

A Justiça concedeu a Marcos o direito de receber de volta seus mais de R$ 500 mil em até 48h, com uma multa de R$ 2 mil para cada dia de atraso. Mas o prazo já passou e a empresa nem o procurou para tentar fazer um acordo.

"Até agora nada. A gente fica muito vulnerável. Dá uma grande apreensão. Eu corro o risco de perder tudo"

"Essa falta de contato é um sinal de abandono jurídico", afirma Leandro Vidotto, advogado de São Paulo que conseguiu a liminar para Marcos.

"Polícia

Polícia Militar foi chamada duas vezes para a sede da Atlas Quantum na semana passada

A empresa se defende: "Para normalizar o acesso aos saques, a Atlas vem trabalhando incessantemente com equipes dedicadas para reunir todos os materiais e a documentação necessária para liberar o acesso. Esses materiais ainda estão sendo verificados pelas exchanges. Devido aos procedimentos internos das corretoras, todas sediadas no exterior, esse processo leva tempo. Mas a Atlas vem buscando fornecer todas as informações solicitadas."

Quanto ao descumprimento da liminar de pagamento, afirma que "sobre questões judiciais, a Atlas Quantum se manifestará nos autos dos processos."

Família não consegue sacar dinheiro para parto

O funcionário público Jacó Vieira, de 39 anos, do Ceará, tinha 1,3 bitcoin na Atlas Quantum, e estava contando com a moeda virtual para o pagamento da cesariana do filho, que nasceu na quarta (25) — a gravidez de sua mulher era de risco e ele desejava fazer o parto na rede particular.

Ele tentou fazer o saque no início de setembro, mas a empresa não transferiu o dinheiro.

Com o saque que faria na Atlas Quantum, iria pagar o parto, comprar o enxoval do bebê e terminal de construir sua casa — hoje, ele mora de aluguel. Sem receber o dinheiro, todos esses planos foram por água abaixo.

"Uma semana antes, tive que desmarcar o médico, desmarcar o parto. Foi uma humilhação grande e um transtorno", diz ele.

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Jacó conseguiu uma liminar da Justiça para receber da Atlas, mas mesmo assim a empresa não transferiu seu dinheiro

 

Jacó ganha um salário de cerca de R$ 1 mil como funcionário público em um hospital na cidade de Madalena, no interior do Ceará. Os cerca de R$ 60 mil que tinha em bitcoins foram acumulados em dez anos, através de pequenos investimentos e da venda uma casa, que havia comprado com condições mais vantajosas do pai.

"Em Madalena não fazem parto no hospital, eu tive que ir para Canindé com minha esposa, tive que fazer pelo SUS. Eu ia com ela, eles mandavam de volta, dizendo que não estava no tempo, mas já estava no tempo, minha esposa não entra em trabalho de parto — não entrou nos meus dois outros filhos, tem risco se ficar demais na barriga", afirma.

Ele inicialmente comprou bitcoins com a Atlas para que fosse enviados para sua carteira, mas, diz ele, sem sua autorização, a empresa não fez a transferência e manteve as moedas, deixando-as no sistema de arbitragem.

"Normalmente quem fazia a arbitragem era eu, porque sou day trader, mas como eu estava sem tempo, minha capacidade de investimento não é grande, e deixando lá eles prometiam um rendimento, eu deixei", diz ele.

O funcionário público também achou que a empresa tinha todos os indícios de ser confiável. "A gente só via gente falando bem, eles estavam na TV."

Depois de não conseguir receber, Jacó também conseguiu uma liminar da Justiça de São Paulo para receber seus bitcoins da Atlas Quantum com urgência, com pena de multa para a empresa para cada dia de atraso, mas assim como os outros clientes, também não recebeu mesmo com a ordem judicial.

"Se eles não pagarem vou ficar no prejuízo total, ter que começar tudo do zero", lamenta ele, cuja esposa e filho recém-nascido ainda nem tiveram alta do hospital.

Prestação de contas

A crise fez os princípais executivos serem demitidos da empresa no mês de setembro.

O escritório de advocacia que atendia a startup, Malgueiro Campos, encerrou o contrato com a Atlas Quantum por quebra de confiança na relação advogado-cliente, mas disse que iria concluir "trabalhos remanescentes dentro dos termos contratuais". Procurado pela BBC, o escritório confirmou a nota que anunciava o encerramento, mas não quis comentar o caso.

O fundador e CEO da Atlas Quantum, Rodrigo Marques, foi chamado para um audiência pública na Câmara dos Deputados na quarta-feira (25), pelo deputado federal Áureo Ribeiro (Solidariedade/RJ).

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Clientes da Atlas Quantum não foram procurados para acordo após liminares da Justiça obrigarem o pagamento

 

No entanto, na audiência pública, Marques não respondeu quantos dos bitcoins dos clientes estariam presos nas bolsas internacionais mesmo sendo questionado quatro vezes sobre o assunto.

Em meio à crise, a empresa chegou a ser acusada de ser um esquema de pirâmide financeira — o que nega. "A empresa não tem nenhum programa de referral, indicação ou algo que caracterize marketing multinível, muito comum em esquemas fraude financeira. Nunca garantiu rendimentos fixos, tendo em vista que seu produto principal é a arbitragem automatizada de alta frequência. Sempre deixamos claro que pela natureza do nosso produto e do mercado, a renda é variável podendo, inclusive, ter dias com a rentabilidade negativa, apesar de trabalharmos arduamente para que isso não aconteça."

A empresa afirma que também fez ajustes no quadro de funcionários e busca outras forma de capitalização para reforçar a liquidez para os saques solicitados, o que inclui a possibilidade empréstimos ou abertura de capital.

Clientes frustrados

Além dos casos de Marcos e Jacó, só em São Paulo a Atlas Quantum enfrenta pelo menos outras 18 ações na Justiça, e ao menos quatro já conseguiram liminares ordenando o pagamento.

Uma delas é de dois clientes que, juntos, têm 444 criptomoedas — a startup deve a eles cerca de R$ 18 milhões de reais.

Mas nem todos o clientes entraram na Justiça — ainda.

O programador Eduardo Silva, de 33 anos, de São Paulo, investiu um capital de risco — cerca R$ 20 mil — na Atlas Quantum porque a empresa foi indicado por amigos do trabalho.

"Meu amigo já tinha conseguido sacar, indicou, e vi que parado o dinheiro rendia. A gente sabe que bitcoin tem um grande risco, mas parecia uma empresa sólida. Até prêmio de melhor startup eles ganharam", afirma.

"Eu estou um pouco inseguro e um pouco chateado, e se não conseguir sacar também vou procurar os meios legais", diz ele.

"Como eu já pedi o saque, o dinheiro não está rendendo, mas também não está comigo, é como se estivesse num limbo."

 

Letícia MoriDa BBC News Brasil